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    Revista Valor Especial - Inovação | Biofábricas revolucionam produção de mudas13/08/2013Micropropagação de plantas em biorreatores permite aumentar em até 40 vezes a produtividade de mudas de eucalipto 

    Há três décadas, o cultivo de eucalipto para produção de celulose e papel passou por uma transformação radical: o plantio com sementes cedeu lugar ao de mudas clonadas de espécies selecionadas e mais bem adaptadas ao clima e ao solo brasileiros. Os experimentos de clonagem de eucalipto em escala industrial foram realizados no final da década de 1970 pela Aracruz Celulose. Agora a empresa, batizada de Fibra em 2009 após fusão com a Votorantim Celulose e Papel, está novamente no limiar de outra transformação biotecnológica: a produção industrial "in vitro" de mudas clonais de eucalipto em biorreatores.

    A tecnologia, fruto de pesquisas durante dez anos, permite aumentar em até 40 vezes a produção. Trata-se de um sistema de produção em que a estrela é um biorreator, um equipamento de cultivo intensivo desenvolvido especialmente para plantas lenhosas, que permite o cultivo de mudas por micropropagação – a produção rápida de milhares de clones de uma planta, a partir de uma púnica célula vegetal somática ou de uma estaca (pequeno pedaço de tecido vegetal jovem).

    Na prática, os biorreatores – também chamados de biofábricas – proporcionam, em laboratório, as condições ideais para a transformação dos tecidos vegetais em plantas completas: água, luz oxigênio, gás carbônico e nutrientes. Com o beneficio adicional de reduzir em até 40% o tempo de produção das mudas em relação ao cultivo em viveiros (jardins clonais), atualmente a técnica padrão para produção de clones.

    "Na técnica de jardins clonais, são produzidas 30 estacas por m² Já nas biofábricas, são 1.200 estacas por m², um salto de produtividade de 40 vezes mais", explica Fernando Bertolucci, gerente-geral do Centro de Tecnologia de Fibra. "Outro ganho adicional é de rapidez na produção dos clones: enquanto no jardim clonal se levam 90 dias para produzir essa quantidade de mudas, nos biorreatores o tempo cai para 55 dias."

    O design do biorreator, adaptado aos hábitos de crescimento e desenvolvimento fisiológico do eucalipto, é atualmente objeto de um pedido de patente. Consumiu dez anos de estudos, 7 pesquisadores trabalhando em tempo integral nos laboratórios do Centro de Pesquisa da empresa, em Jacareí (SP) e uma fatia importante do orçamento de R$ 42 milhões destinados à P&D em 2012.

    A expectativa da Fibra é iniciar, ainda neste ano, a produção de 200 mil mudas pelo sistema de biorreatores. "Por ser uma inovação de fronteira, a adesão ao novo sistema de produção será gradual. O plano é que essa técnic a corresponda a 20% da produção de mudas no curto prazo e que prevaleça sobre os jardins clonais dentro de cinco anos." Outra frente será licenciar a tecnologia para outras espécies lenhosas. "Os biorreatores vão r epresentar uma grande vantagem competitiva para a  Fibra na próxima década", diz Bertolucci.

    A biotecnologia tende a se tornar ainda mais presente também na produção de biocombustíveis. Uma das frentes avançadas é com a cana-de-açucar geneticamente modificada, alvo de estudos há duas décadas pela Embrapa e pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). "Existem várias pesquisas com a cana-de-açucar, tanto para torná-la mais resistente à seca, para aumentar o teor de sacarose, para reduzir o espaço do cultivo e para melhoria do porte da planta para facilitar a colheita mecanizada", diz Adriana Brondani, diretora executiva do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). Segundo ela, o desenvolvimento de combustíveis alternativos usando a biotecnologia é promissor.

       Foto: Naira Silva/Algae
    Fotobioreatores em operação na Algae
    Um exemplo é o uso de microalgas para produção de biodiesel, filão que começa a crescer nos Estados Unidos, onde recebeu mais de US$ 1 bilhão em investimentos nos últimos cinco anos. Deste montante, metade foi investimento de empresas privadas, como a petroleira Exxon Mobil, e outra metade veio do governo Barack Obama. No Brasil, há empresas pesquisando as microalgas, mas os empreendedores ainda têm dificuldades de fazer as pesquisas virarem negócio.

    A Algae, empresa do Grupo Ecogeo, de tecnologias ambientais, é um exemplo. Criada em 2009 pelo engenheiro agrônomo Sérgio Goldemberg, filho do ex-ministro de Energia José Goldemberg, a empresa trabalha em três frentes de pesquisa para a aplicação das microalgas: biocombustíveis, proteína para consumo animal e nutracêuticos (suplementos).

    O cultivo é feito em reatores dentro do laboratório. Neles, as microalgas, alimentadas por nutrientes como CO2, ou sacarose, dobram de tamanho. "Elas produzem grande quantidade de biomassa rica em óleo, que pode ser transformada em biodiesel ou em produtos de alto valor agregado, destinados à indústria alimentícia e de cosméticos."

    Apesar de promissor, ainda é difícil para empresas de pequeno porte transformar a pesquisa de laboratório em produtos rentáveis. Um dos empecilhos é a dificuldade de acesso aos recursos públicos para inovação. "O acesso a financiamento público é muito difícil. Demoramos dois anos para conseguir recursos do BNDES e nove meses para receber um investimento da Finep", conta Goldemberg. Em 2009, a startup recebeu aval para um aporte de R$ 3 milhões do BNDES.

    Na área de commodities, a bio tecnologia veio para ficar. O Brasil é hoje o segundo maior produtor mundial de transgênicos, com 36,6 milhões de hectares cultivados, perdendo apenas para os Estados Unidos. Atualmente, 89% da soja, 76% do milho e 70% do algodão cultivados no país são geneticamente modificados. Na área de pecuária, a biotecnologia promete ser um campo promissor: embora o país tenha um rebanho bovino de mais de 200 milhões de cabeças, menos de 10% das matrizes são emprenhadas como uso das técnicas de biotecnologia, como a inseminação artificial e a transferência de embriões.

    De olho neste potencial, a Seleon Biotecnologia, recém-criada pelo empresário Bruno Grubisich, receberá investimentos de R$20 milhões em uma central de coleta e processamento de sêmen em Itatinga (SP) com capacidade para abrigar 200 touros e aplicar a biotecnologia para aumentar a produtividade dos rebanhos.

    Com operação prevista para o início de 2014, a empresa prevê a implantação de um laboratório para produzir em grande escala embriões bovinos "in vitro" que passaram por melhoramento genético e deve concentrar estudos na área de genômica. "O plano é contribuir para a criação de valor na cadeia produtiva do leite e da carne com o fornecimento de tecnologias de reprodução competitivas."

    Notícia publicada originalmente em Revista Valor Especial - Inovação  
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